O luto, frequentemente associado a profundas dores emocionais, também exerce impactos significativos no corpo físico. Estudos indicam que, nos seis meses subsequentes à perda de um ente querido, há um aumento na suscetibilidade a doenças e acidentes.
Além disso, pesquisas apontam que as emoções intensas vivenciadas durante o luto podem desencadear desequilíbrios químicos no cérebro, resultando em sintomas físicos como dores no peito, sudorese, tremores, tonturas e fraqueza.
É necessário compreender o luto, não apenas como um processo emocional, mas também como um fenômeno com repercussões físicas tangíveis. Para explicar sobre as consequência do luto no organismo, conversamos com a médica endocrinologista e educadora física, Izabela Reis.
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O luto e seus impactos na saúde física e emocional
O luto é um processo natural, mas que pode trazer consequências significativas para a saúde emocional e física de quem passa por essa experiência. Além do sofrimento psíquico, o corpo também sente os efeitos dessa perda, manifestando sintomas que podem ir desde alterações no sono e na alimentação até distúrbios hormonais graves. Quando isso acontece, é necessário buscar ajuda, como explica a médica Izabela Dias. “Compreender essas mudanças e buscar acompanhamento adequado são passos fundamentais para atravessar esse período de maneira mais saudável e com menos impacto”.
Alterações hormonais e o impacto no organismo
Um dos principais efeitos do luto no organismo é a desregulação hormonal, que pode desencadear ou agravar diversas condições de saúde. A especialista destaca que “o paciente em processo de luto pode desenvolver distúrbios do sono ou alimentares e ansiedade. Além disso, caso o paciente já tenha alguma dessas condições, elas podem se tornar ainda mais intensas”.
A alteração do sono é uma das mais comuns. Durante o luto, o organismo pode aumentar a produção de cortisol, hormônio relacionado ao estresse, interferindo diretamente na melatonina, essencial para um sono reparador. “Esse paciente pode ficar mais estressado e chateado durante o dia, dependendo da fase do luto em que estiver. A alta do cortisol pode inibir a melatonina, prejudicando o sono e, consequentemente, desencadeando outros problemas”, alerta a médica.
Nesses casos, a insulina também pode ser afetada. “A alteração no sono aumenta a chance de desenvolver resistência insulínica, que está relacionada a condições como gordura no fígado e aumento da circunferência abdominal. Noites mal dormidas também podem aumentar a vontade de ingerir alimentos calóricos e ultraprocessados, o que agrava ainda mais o quadro metabólico”, complementa Izabela.
Os efeitos no apetite e na digestão
A relação entre luto e alimentação também merece atenção. Muitas pessoas relatam perda de apetite, enquanto outras buscam na comida uma forma de conforto emocional. A médica esclarece que “as angústias e tristezas podem gerar uma sensação de plenitude gástrica, fazendo com que a pessoa se sinta cheia mesmo sem ter se alimentado. Isso é um reflexo do corpo entrando em um modo de sobrevivência para lidar com o sofrimento”.
Por outro lado, para quem já possui distúrbios alimentares, o luto pode ser um gatilho. “Pacientes com histórico de compulsão alimentar, beliscadores frequentes ou que sofrem de síndrome do comer noturno podem ter seus sintomas exacerbados”, acrescenta.
Luto e doenças crônicas: um alerta necessário
Pessoas que já possuem doenças crônicas precisam ter um cuidado redobrado durante o luto, pois o estresse pode agravar seus quadros. “Pacientes com doenças autoimunes, como Hashimoto ou endometriose, podem ver seus sintomas se intensificarem. O estresse e o impacto emocional podem atuar como gatilhos para a ativação dessas doenças”, explica a especialista.
Outra preocupação é com pacientes diabéticos que fazem uso de medicamentos para controle da glicemia. “Muitas pessoas em luto passam longos períodos sem se alimentar e continuam tomando seus remédios, o que pode resultar em episódios de hipoglicemia. Já presenciei casos em velórios em que pessoas passaram mal devido à falta de alimentação adequada”, alerta.
O que fazer para minimizar os impactos na saúde?
A médica reforça que alguns cuidados básicos são essenciais para atravessar esse momento com mais equilíbrio. “O básico funciona, e o óbvio precisa ser dito: garantir boas noites de sono, manter a hidratação e evitar passar muitas horas sem comer. Esses são aspectos fundamentais para a saúde”, salienta Izabela.
Outro ponto importante é o acolhimento da dor. “O luto passa por várias fases, e o apoio é essencial. É comum, nos primeiros dias, o paciente precisar de auxílio medicamentoso para dormir, e isso é normal. O sofrimento emocional causa uma grande demanda energética no corpo, e um sono adequado é vital para a recuperação”.
Atividade física e alimentação adequada
A prática de exercícios físicos também é uma ferramenta valiosa no processo de luto. “A atividade física estimula a produção de neurotransmissores ligados ao prazer e ao bem-estar, ajudando a aliviar a angústia e tornando o processo menos doloroso”, orienta.
Sobre a alimentação, é importante evitar certos alimentos que podem agravar os sintomas do luto. “Cafeína, por exemplo, é muito servida em velórios, mas o excesso pode causar palpitação, sudorese fria e sensação de angústia. Alimentos ricos em açúcar também podem piorar o quadro, aumentando a instabilidade emocional”, finaliza a especialista.