Quando é a hora de buscar ajuda para o seu luto?

Luto e Terapia

A experiência do luto é uma reação natural e esperada diante de uma perda significativa ou de uma ruptura drástica e inesperada. Esse é um processo saudável, fruto dos vínculos que construímos ao longo da vida e da própria organização mental que fazemos para manter a vida em movimento.

Cada um de nós carrega, dentro de si, um mundo ideal: uma espécie de maquete mental onde projetamos quem queremos ser, o que desejamos fazer e como esperamos que a vida funcione. Nesse mundo ideal, existe uma versão imaginária de nós mesmos — magra, produtiva, bem-sucedida, saudável, sempre presente para os amigos e família. Essa autoimagem imaginária nos serve como referência e, muitas vezes, como fonte de exigências quase inatingíveis.

Quanto mais a realidade se aproxima desse ideal, mais sentimos uma sensação de ordem e satisfação. Porém, quanto mais distante estamos dele, mais percebemos um senso de desorientação e vazio. E, por mais que busquemos esse equilíbrio, a vida real tem uma maneira implacável de intervir nos nossos planos. Ela quebra roteiros, altera expectativas e nos confronta com a impossibilidade de controle absoluto.


É a partir desse mundo ideal que nos relacionamos com os outros e com nossas experiências de perda. No entanto, a vida insiste em nos lembrar que as pessoas reais e as circunstâncias não respondem aos nossos planos. Nós não temos controle sobre o que as pessoas querem ou imaginam de nós, assim como não podemos mudar as suas ações e escolhas.


O luto surge justamente quando essa maquete interna é destruída pela realidade crua da vida. Ele desorganiza não apenas os planos, mas também nossa visão de quem somos e de como o mundo funciona. Essa quebra traz sensações profundas de vazio, perda de sentido, de identidade e desesperança, abala crenças fortes e a nossa ideia de espiritualidade. O luto não é feito apenas de saudade e tristeza. Todo o corpo reage a esse processo. É comum haver alterações no apetite, no sono, na atenção, na concentração e até mesmo na produtividade. O humor oscila, o medo e a ansiedade aumentam, e pode surgir uma sensação de estar “aéreo”, desconectado da realidade. Até a forma como nos relacionamos com os outros, com a espiritualidade e com nossos objetivos podem ser
afetadas.


Apesar de toda essa intensidade, o luto é vivido de maneira saudável pela maioria das pessoas. Então, como saber quando é hora de buscar ajuda? Embora o luto seja uma experiência natural, há momentos em que a ajuda profissional se torna essencial. Não existe regra nem uma orientação que sirva a todos, mas temos alguns sinais que servem de alerta e nos indicam que é hora de procurar apoio. Vou citar alguns desses indícios:

Intensidade emocional alta e prolongada: Quando a dor, tristeza e angústia
parecem insuportáveis por um longo período e não apresentam melhora com o
tempo.

Impacto nas atividades diárias: Quando o luto começa a prejudicar funções básicas, como trabalho, sono, alimentação e relacionamentos.

Culpa e desesperança persistentes: Sentimentos intensos de culpa, autorrecriminação e falta de perspectiva podem ser sinais de alerta.

Isolamento extremo: Evitar amigos e familiares por muito tempo e não encontrar conforto em sua rede de apoio pode ser um indicador importante.

Sintomas físicos ou psicossomáticos: Dores no corpo, cansaço extremo ou outros sintomas sem explicação médica podem indicar que o luto está afetando sua saúde.

Ideação suicida: Pensamentos recorrentes de morte, falta de sentido na vida ou desejo de se juntar à pessoa perdida são sinais claros de que é necessário buscar ajuda imediatamente.

Esses sinais podem estar presentes em qualquer processo de luto saudável, mas o que merece atenção e pode trazer preocupação é sua intensidade, prolongamento e impacto na qualidade e no funcionamento da vida. Nem todas as pessoas têm recursos internos ou externos suficientes para atravessar o luto sozinhas. A falta de uma rede de apoio, de um ambiente seguro ou de alguém que realmente saiba escutar pode tornar esse processo ainda mais desafiador. É aqui que a ajuda profissional se torna essencial.

Um psicólogo ou psicanalista capacitado pode oferecer um espaço de acolhimento, onde você pode explorar suas emoções sem medo de julgamentos. Esse profissional sabe ouvir e intervir de forma adequada, sem causar danos, ajudando você a reorganizar sua vida após a perda. A escuta profissional é diferente de uma conversa comum. Ela não busca respostas rápidas ou soluções prontas. Em vez disso, oferece um espaço para que você possa, aos poucos, compreender suas emoções, reconhecer a profundidade dos seus vínculos e reconstruir uma vida satisfatória a partir disso.

O luto não é sobre “superar” uma perda, mas sobre aprender a viver com ela e apesar dela. É um processo de adaptação, de reorganização e, muitas vezes, de reconstrução. Não há pressa para que isso aconteça. Cada pessoa tem seu ritmo, e é importante respeitá-lo. Permitir-se viver o luto é um ato de coragem. É aceitar que a dor faz parte do amor, que a perda é inerente aos vínculos que criamos. Mas também é reconhecer que, mesmo diante da dor, é possível encontrar força, significado e, eventualmente, esperança.

Se você sente que não consegue atravessar esse processo sozinho, buscar ajuda não é um sinal de fraqueza. Pelo contrário, é uma demonstração de cuidado consigo mesmo, de respeito pela sua história e pelos seus vínculos.

Lembre-se: Você não precisa fazer isso sozinho. Há profissionais prontos para caminhar ao seu lado oferecendo a escuta, o acolhimento e apoio de que você precisa para reconstruir sua vida após a perda. Buscar ajuda para lidar com o luto é também um convite para cuidar de si, para olhar com atenção para o que está acontecendo dentro de você . Reconhecer que é difícil seguir sozinho não diminui a sua força, pelo contrário, demonstra uma grande capacidade de reconhecer suas necessidadese se abrir para a possibilidade de transformação.

A ajuda profissional não é sobre apagar a dor, mas sobre criar espaço para que ela seja sentida e elaborada. É um espaço onde você pode reconfigurar sua história, acolher os momentos vividos e transformar a ausência em um tipo diferente de presença — uma que segue com você, não para paralisar, mas para fortalecer. O luto é uma travessia, e como qualquer travessia, pode ser mais segura e significativa quando há alguém ao seu lado. Permita-se dar esse passo. Você merece esse cuidado, e sua história merece ser reconstruída com a delicadeza e o respeito que ela carrega.

Conheça o Autor

Psicanalista Especialista em Clínica Psicanalítica de Freud a Lacan, pela PucMinas. Graduada em Psicologia, pela PucMinas. Formação contínua em Psicanálise, pelo Instituto de Psicanálise Lacaniana (IPLA/SP). Formação contínua em Psicanálise, pela Escola Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais. Formação em Perdas e Lutos, por Ana Clara Bastos Psicologia. Capacitação em Primeiros Socorros Psicológicos em Emergências e desastres, pelo Humanitás desenvolvimento de pessoas.

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